Milhares de empregos formais foram eliminados desde 2023, com a indústria operando em baixa e consumo retraído, intensificando a pressão sobre o governo Milei.

Enquanto o presidente da Argentina, Javier Milei, celebra a queda da inflação e a desregulamentação da economia, o setor industrial do país vive um momento de profunda crise. Empresas fecham as portas, máquinas param e milhares de empregos são eliminados, gerando um debate acalorado sobre os rumos da economia.

Desde dezembro de 2023, quando Milei assumiu o poder, aproximadamente 30 mil empresas encerraram suas atividades. A promessa de que os empregos perdidos em um setor seriam compensados por novas oportunidades em outros segmentos, mais competitivos internacionalmente, não se concretizou para muitos.

A realidade atual mostra uma indústria com grande capacidade ociosa e um mercado de trabalho formal em retração, com a população buscando alternativas informais para sobreviver. Esse cenário de contrastes coloca em xeque a efetividade das políticas ultraliberais do governo e aumenta a pressão sobre o presidente.

A Retração da Indústria e o Fechamento de Fábricas na Argentina

O impacto da crise é visível em diversos setores. A fábrica de sapatos Kioshi, que em 2023 empregava 120 funcionários, hoje conta com apenas 14. O diretor da fábrica, Emmanuel Fernández, descreve um ambiente de galpões escuros e máquinas paradas, com caixas de mercadorias encalhadas.

Em Zárate, uma cidade industrial a 90 km de Buenos Aires, a fábrica de produtos químicos Clariant decidiu encerrar suas operações em 2025, optando por importar do Brasil. Miguel Márquez, que trabalhou ali por 20 anos e foi um dos 42 demitidos, relata que apenas dois de seus ex-colegas conseguiram um emprego formal, enquanto a maioria, como ele, sobrevive de trabalhos informais, como motorista de aplicativos.

A União Industrial Argentina (UIA) alertou na semana passada para a perda de cerca de 90 mil empregos industriais desde agosto de 2023 e pediu medidas urgentes diante da abertura econômica. A produção manufatureira registrou uma queda de 5% entre junho e julho, o maior recuo em 16 meses, e o setor opera com aproximadamente 40% de capacidade ociosa.

O Desafio da Concorrência e a Resposta do Governo Milei

Empresários apontam a “avalanche de importação” como um dos principais fatores para a crise. Segundo eles, um “atraso cambiário” encarece os produtos locais em dólar, dificultando a competição com itens importados, especialmente da China. Além disso, os altos juros sobre o crédito e uma pesada carga tributária contribuem para um ambiente desfavorável.

Apesar das reivindicações da UIA, o presidente Javier Milei manteve sua postura, afirmando que sua política de austeridade e desregulamentação “não é negociável”. O ministro da Economia, Luis Caputo, declarou que seu papel é defender os interesses de “48 milhões de argentinos, não de determinados empresários”.

Queda da Inflação vs. Retração do Consumo

Um dos principais resultados econômicos destacados pelo governo Milei é a redução da inflação interanual, que caiu para 33,8% em julho, vindo de patamares de três dígitos quando ele assumiu. Contudo, essa melhora macroeconômica não se traduz em aquecimento do consumo.

A fragilidade do consumo é uma preocupação crescente. Na fábrica de cordas para instrumentos Martin Blust, que emprega dez pessoas, as portas fecham às sextas-feiras por falta de encomendas. Gloria Aparicio, sócia da empresa, resume o paradoxo: “Não há inflação porque não há compras”.

Pesquisas recentes indicam que emprego e salários superaram a inflação como principal preocupação dos argentinos, um sinal de alerta para Milei, que buscará a reeleição em 2027. Na fábrica Kioshi, Emmanuel Fernández testemunha a angústia dos trabalhadores, que pedem antecipações salariais para arcar com o transporte. Eles estão “frustrados e irritados”, uma percepção que se espalha pela rua e pela sociedade.

Perguntas Frequentes

Qual a situação atual do emprego na indústria argentina?

A indústria argentina perdeu mais de 240 mil empregos formais no setor privado desde 2023, com o setor operando com 40% de capacidade ociosa e cerca de 90 mil vagas industriais eliminadas desde agosto de 2023.

Por que tantas empresas estão fechando na Argentina?

Desde que Javier Milei assumiu a presidência em dezembro de 2023, aproximadamente 30 mil empresas fecharam as portas, impactadas pela abertura econômica que favorece a importação, a alta carga tributária, juros elevados e a retração do consumo interno.

As políticas de Javier Milei estão impactando a economia argentina?

As políticas de austeridade e desregulamentação do presidente Javier Milei conseguiram reduzir a inflação interanual para 33,8% em julho, mas têm gerado uma profunda crise na indústria, com perda de empregos e fechamento de fábricas, impactando o consumo e aumentando a pressão social.

A queda da inflação na Argentina resolveu os problemas econômicos do país?

Apesar da queda significativa da inflação, o país enfrenta problemas como a perda de empregos formais, a crise na indústria e a retração do consumo, o que fez com que emprego e salários se tornassem as principais preocupações dos argentinos.

O que a União Industrial Argentina (UIA) reivindica do governo?

A UIA pediu medidas urgentes ao governo argentino diante da abertura econômica e da perda massiva de empregos na indústria, alertando para a concorrência desleal com produtos importados e a necessidade de apoio ao setor produtivo local.